
O cenário do comércio exterior brasileiro iniciou o ano de 2026 com uma mudança estrutural profunda. Em uma decisão que ecoou rapidamente pelos centros industriais e pelas prateleiras do varejo, o Governo Federal oficializou um robusto ajuste tarifário que altera significativamente o custo de entrada de mercadorias estrangeiras no país. A medida, formalizada pela Resolução Gecex nº 852/2026, elevou as alíquotas do imposto de importação sobre uma lista extensa que ultrapassa 1.200 produtos, atingindo patamares de até 25% em categorias estratégicas.
Esta movimentação não é apenas um ajuste contábil; ela representa uma guinada na política comercial brasileira. Com uma expectativa de arrecadação estimada em cerca de R$ 14 bilhões, a medida colocou o tema em destaque absoluto no noticiário econômico, gerando debates entre defensores da indústria nacional e representantes de setores dependentes de tecnologia global. Para o consumidor e para o empresário, entender as engrenagens dessa decisão é o primeiro passo para navegar em um mercado onde os custos de aquisição acabam de ganhar uma nova camada de complexidade.
O que mudou no imposto de importação em 2026

A principal mudança reside no fim de diversas isenções e na elevação de alíquotas que, em muitos casos, estavam reduzidas ou zeradas para fomentar o consumo e o investimento tecnológico nos anos anteriores. A Resolução Gecex 852 reconfigura a incidência tributária sobre bens que vão desde maquinários pesados até itens cotidianos, como smartphones e componentes eletrônicos.
O aumento de 25% na importação de itens específicos marca o retorno de uma postura mais protecionista. Até então, o Brasil vinha seguindo uma tendência de abertura gradual, mas o novo texto legal inverte essa lógica em prol de um reequilíbrio fiscal e da proteção do mercado interno. A elevação não é linear; ela foi aplicada de forma cirúrgica em produtos que o governo identifica como tendo potencial de produção nacional ou que representam uma saída expressiva de divisas.
Resolução Gecex nº 852: o que ela determina
Para compreender a base legal dessa mudança, é preciso olhar para a Câmara de Comércio Exterior (Camex) e seu Comitê Executivo de Gestão (Gecex). No sistema brasileiro, o imposto de importação possui uma natureza chamada de “extrafiscal”. Isso significa que, diferentemente de outros tributos que exigem aprovação legislativa complexa e o cumprimento do princípio da anterioridade anual, a tarifa de importação pode ser alterada diretamente pelo Poder Executivo por meio de resoluções.
A Resolução Gecex nº 852 atua sobre a Tarifa Externa Comum (TEC), que é a base tarifária acordada entre os países do Mercosul, e sobre as listas de exceções brasileiras. Ao alterar os códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCMs) contemplados na resolução, o governo altera o custo de desembaraço aduaneiro no momento em que a mercadoria chega ao porto ou aeroporto. Na prática, o documento funciona como uma nova tabela de preços para o comércio internacional brasileiro, redefinindo quem pode competir no mercado local.
Quais produtos serão mais afetados
O alcance da medida é vasto, atingindo mais de 1.200 itens. No entanto, o impacto é sentido com mais intensidade em três pilares principais:
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Bens de Capital (BK): Máquinas, motores e equipamentos industriais que antes entravam com tarifas reduzidas para modernizar fábricas agora enfrentam alíquotas cheias. Isso afeta diretamente o custo de investimento de expansão das empresas brasileiras.
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Bens de Informática e Telecomunicações (BIT): Este é o setor de maior visibilidade para o público geral. O imposto sobre celulares, laptops, tablets e roteadores sofreu reajustes que pressionam os preços para cima, tornando os eletrônicos mais caros em curto prazo.
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Insumos Industriais: Produtos químicos, componentes plásticos e peças metálicas utilizadas na cadeia de montagem nacional também figuram na lista, o que gera um efeito cascata em diversos setores da economia.
É importante notar que o impacto vai muito além do “produto na prateleira”. Quando o imposto sobe para uma máquina industrial, o custo de produção do pão, do tecido ou do automóvel fabricado no Brasil também pode subir, uma vez que o maquinário utilizado ficou mais caro.
Por que o governo decidiu aumentar tarifas
A justificativa oficial do governo para a Resolução Gecex 852 é multifacetada e baseia-se em argumentos de soberania econômica e saúde financeira. Os principais pontos defendidos são:
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Contenção do Avanço das Importações: O governo observou um aumento desproporcional na entrada de produtos estrangeiros, muitas vezes subsidiados em seus países de origem, o que estaria gerando um déficit comercial preocupante em setores de alta tecnologia.
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Proteção da Indústria Nacional: Ao encarecer o importado, o governo busca criar uma “reserva de mercado” indireta, incentivando que empresas instaladas no Brasil invistam em produção local para suprir a demanda.
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Reforço da Arrecadação: Em um momento de ajuste nas contas públicas, a arrecadação de R$ 14 bilhões prevista com essas novas alíquotas é vista como uma fonte importante para o cumprimento das metas fiscais do orçamento de 2026.
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Ajuste de Política Comercial: O Brasil busca usar as tarifas como moeda de troca em negociações internacionais, sinalizando que o acesso ao mercado consumidor brasileiro tem um custo.
Como o imposto de importação impacta o preço final

Para o leitor leigo, o funcionamento do imposto de importação no Brasil pode parecer burocrático, mas a lógica é matemática e cumulativa. O imposto incide sobre o chamado “valor aduaneiro”, que é a soma do preço do produto, do seguro e do frete internacional.
O ponto crucial é que o Imposto de Importação (II) é o primeiro da fila. Após o seu cálculo, outros tributos como IPI, PIS, COFINS e o ICMS estadual são aplicados, muitas vezes utilizando o valor já acrescido do II como base de cálculo. É o famoso “imposto sobre imposto”.
Exemplo Didático de Cálculo
Imagine uma máquina ou um lote de eletrônicos cujo valor aduaneiro seja de US$ 1.000. Com o dólar hipotético, vamos analisar a diferença:
| Componente | Regra Anterior (10%) | Nova Regra Gecex 852 (25%) |
| Valor do Produto | US$ 1.000 | US$ 1.000 |
| Alíquota de Importação | 10% | 25% |
| Valor do Imposto | US$ 100 | US$ 250 |
| Custo Base após Imposto | US$ 1.100 | US$ 1.250 |
Neste cenário simples, o custo base do produto sobe US$ 150 antes mesmo da incidência dos impostos internos (ICMS e IPI). No final da cadeia, esse aumento de 15 pontos percentuais na alíquota pode resultar em um preço final ao consumidor entre 20% e 30% maior, dependendo da margem de lucro e da cascata tributária.
Impacto econômico imediato e reações do mercado
O anúncio gerou uma reação imediata nos indicadores de mercado. O principal temor de analistas é o impacto do imposto na inflação. Setores que dependem fortemente de tecnologia importada já começaram a revisar suas projeções de preços. Por outro lado, associações industriais celebraram a medida, vendo nela uma oportunidade de retomar o crescimento da produção fabril em solo brasileiro, alegando que a competição com o produto importado era, até então, desleal.
Há também uma preocupação com a “inflação de custos”. Se uma fábrica brasileira precisa de um componente importado que agora está 25% mais caro, ela terá duas opções: reduzir sua margem de lucro para manter o preço ou repassar o custo para o consumidor. Em um cenário de demanda ainda em recuperação, esse equilíbrio é delicado.
A tarifa de importação no Brasil em 2026 torna-se, portanto, um divisor de águas. De um lado, o esforço arrecadatório e a proteção setorial; do outro, o risco de encarecimento da vida e da modernização tecnológica. O que se observa agora é um período de ajuste, onde as empresas recalibram suas planilhas de custos e os consumidores monitoram o movimento das prateleiras.
Para entender se esse aumento será totalmente repassado ao consumidor ou absorvido parcialmente pelas empresas, é necessário analisar como funciona o mecanismo de formação de preços na cadeia produtiva.
Como o imposto afeta o preço final
A compreensão da formação de preço importado exige um mergulho técnico na estrutura de custos que ocorre muito antes de um produto chegar à vitrine. O ponto de partida é o valor aduaneiro, que compreende o preço da mercadoria no exterior somado aos custos de frete internacional e seguro (conhecido no comércio exterior como valor CIF – Cost, Insurance and Freight). É sobre essa base, convertida para a moeda nacional, que incide o primeiro grande filtro: o imposto de importação.
Diferente de uma simples taxa fixa, o imposto de importação atua como o “gatilho” de toda a carga tributária subsequente. Quando a Resolução Gecex 852 eleva uma alíquota de 10% para 25%, ela não está apenas adicionando 15 pontos percentuais ao valor original. Ela está alterando a base de cálculo de todos os outros tributos federais e estaduais que compõem o custo de nacionalização. Na prática, o importador ou a indústria que utiliza insumos estrangeiros precisa desembolsar esse valor imediatamente no desembaraço da carga, o que compromete o fluxo de caixa e obriga a uma revisão imediata da precificação.
Após a incidência do imposto de importação, aplicam-se o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) — quando aplicável —, o PIS/Pasep e a Cofins-Importação. Por fim, incide o ICMS, que é o imposto estadual. Cada um desses tributos entra na composição do custo de forma sucessiva, criando o que especialistas chamam de empilhamento tributário. Assim, o valor final de entrada do produto no estoque da empresa já é consideravelmente maior que o valor de compra original, antes mesmo da aplicação das margens de lucro do distribuidor e do varejista.
O efeito cascata da tributação
O conceito de efeito cascata tributário é fundamental para entender por que o repasse do imposto ao consumidor costuma ser mais agressivo do que a simples mudança percentual na alíquota de importação sugere. No Brasil, o imposto de importação integra a base de cálculo dos demais tributos. Ou seja, ao elevar a tarifa de importação, o governo aumenta indiretamente o valor arrecadado com PIS, Cofins e ICMS sobre a mesma mercadoria.
Se considerarmos uma alíquota de ICMS de 18%, por exemplo, cada real adicional pago no imposto de importação gera automaticamente um custo extra de dezoito centavos apenas de imposto estadual. Quando somamos as margens de comercialização, o cenário se torna ainda mais oneroso. O varejista, para manter sua operação sustentável, aplica sua margem de lucro (markup) sobre o custo total de aquisição. Se o custo de aquisição subiu devido ao imposto, a margem em valor absoluto também cresce para cobrir despesas fixas, comissões e riscos operacionais.
Esse fenômeno explica por que um aumento nominal de 15% na tarifa de importação pode resultar em uma variação de preço final que ultrapassa os 20% no ponto de venda. É um efeito multiplicador que puni o poder de compra de forma desproporcional à arrecadação direta gerada pela nova resolução.
Empresas vão absorver o aumento?

Diante de um anúncio como o da Resolução Gecex 852, a primeira pergunta do mercado é se as empresas possuem “gordura” nas margens para absorver o custo extra. No curto prazo, a resposta depende fundamentalmente da estratégia de estoque. Empresas que possuem grandes volumes adquiridos antes da vigência do aumento podem segurar os preços para ganhar participação de mercado e atrair clientes de concorrentes que já repassaram o custo.
No entanto, a absorção total do custo é improvável no médio prazo. O aumento do imposto no preço torna-se inevitável à medida que os estoques antigos são repostos pelos novos, já taxados pela nova alíquota. Pequenas e médias empresas, que operam com estoques reduzidos e menor fôlego financeiro, tendem a ser as primeiras a repassar o custo. Grandes varejistas podem tentar negociar com fornecedores internacionais uma redução no preço de origem para compensar o imposto brasileiro, mas essa é uma manobra complexa que depende do peso do Brasil no volume global de vendas daquela marca.
Além disso, a decisão de repassar ou absorver o custo passa pela análise da concorrência nacional. Se um produto importado fica mais caro e não existe um equivalente nacional à altura, o repasse tende a ser integral. Se existe um concorrente local competitivo, a marca importada pode aceitar reduzir sua margem de lucro para não perder espaço na prateleira.
Eletrônicos devem subir quanto?
O setor de tecnologia é o termômetro mais sensível para essas mudanças. Para prever o quanto um celular vai ficar mais caro, é preciso observar a categoria do aparelho. Smartphones de entrada, com margens de lucro mais apertadas e alta sensibilidade a preço, costumam ter o repasse quase imediato. Já modelos premium podem ter o aumento diluído em campanhas de marketing ou subsídios das operadoras.
A análise da elasticidade da demanda desempenha um papel crucial aqui. O conceito econômico de elasticidade mede o quanto o consumidor está disposto a continuar comprando um produto mesmo após um aumento de preço. Bens de tecnologia tornaram-se essenciais para o trabalho e a educação, mas a frequência de troca é elástica: se o preço sobe demais, o consumidor adia a compra ou migra para modelos de gerações anteriores.
Estima-se que para cada 10% de aumento no custo de importação de um eletrônico, o preço final sofra um reajuste real entre 7% e 12%, dependendo da estrutura logística e da eficiência tributária do importador. Em 2026, com alíquotas chegando a 25%, o cenário projeta um preço de eletrônicos 2026 substancialmente mais elevado, o que pode forçar uma reconfiguração do mix de produtos oferecidos pelas grandes redes varejistas.
Impacto na inflação
O impacto do imposto na inflação é uma preocupação latente para o Banco Central e para o planejamento das famílias. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) monitora de perto o grupo de bens duráveis, onde se concentram os produtos atingidos pela Resolução Gecex 852. Um aumento concentrado em mais de 1.200 itens cria uma pressão de custos que não se limita apenas ao varejo de eletrônicos.
A inflação de bens duráveis pode atuar como um componente de inércia inflacionária. Embora o governo espere arrecadar R$ 14 bilhões, o custo social desse movimento é a possível redução do consumo em outros setores, já que as famílias precisam comprometer uma fatia maior do orçamento para adquirir itens de informática ou equipamentos básicos. Não se trata de um cenário alarmista, mas de um ajuste de expectativas: o imposto de importação eletrônicos e bens de capital acaba por encarecer a produtividade do país como um todo.
Para visualizar o impacto real, vejamos um cenário consolidado. Um celular importado com valor aduaneiro de US$ 800 (cerca de R$ 4.000 em valores hipotéticos) que antes pagava 10% de imposto de importação, agora passa a pagar 25%. O custo tributário imediato sobe de US$ 80 para US$ 200. Quando aplicamos o efeito cascata tributário (PIS/Cofins e ICMS sobre uma base maior), o custo total de nacionalização pode subir de R$ 1.800 para R$ 2.600. Mesmo que o varejista reduza sua margem de 30% para 25% na tentativa de manter o cliente, o preço final de venda saltaria de aproximadamente R$ 7.540 para R$ 8.250 — um aumento de quase 10% no preço final, motivado por um ajuste tributário que parecia “apenas” afetar o atacado.
Este cálculo demonstra que o repasse nunca é linear. Ele é uma combinação de aritmética tributária, estratégia de mercado e capacidade de absorção do bolso do consumidor. O mercado brasileiro de 2026 terá que encontrar um novo ponto de equilíbrio entre a necessidade de arrecadação do Estado e o limite de preço suportado pela demanda.
Além do impacto direto no consumidor, a medida também provoca efeitos relevantes sobre a indústria nacional e a competitividade do setor produtivo brasileiro.
Protecionismo e política industrial
A elevação das alíquotas promovida pela Resolução Gecex 852/2026 marca o retorno do uso das tarifas alfandegárias como um instrumento central da política industrial Brasil. Sob a ótica econômica, essa medida fundamenta-se na lógica da proteção da indústria nascente ou na preservação de setores estratégicos que enfrentam uma competição internacional considerada desproporcional. Ao encarecer o produto estrangeiro, o Estado cria uma barreira tarifária que, em teoria, oferece um “fôlego” para que o produtor local recupere margens de lucro, invista em capacidade produtiva e gere empregos em solo nacional.
Essa estratégia de proteção à indústria nacional não é uma novidade no cenário brasileiro, mas ganha novos contornos em 2026. O objetivo central é reativar o motor da substituição de importações, um modelo de desenvolvimento onde o país busca produzir internamente aquilo que antes era adquirido no exterior. No entanto, para que essa substituição ocorra de fato, não basta apenas taxar o concorrente de fora; é preciso que o ambiente interno ofereça condições para que a oferta local floresça. Sem uma base industrial robusta e pronta para atender ao aumento da demanda, a tarifa deixa de ser um incentivo à produção e passa a ser meramente um custo adicional para a sociedade.
Quem ganha com o aumento do imposto

Os setores que mais diretamente celebram a nova resolução são aqueles que já possuem parques fabris instalados e capacidade de expansão. A indústria nacional eletrônicos, por exemplo, vê na medida uma oportunidade de nivelar o campo de jogo frente aos produtos vindos do Leste Asiático, que muitas vezes chegam ao Brasil com preços imbatíveis devido a ganhos de escala massivos e subsídios em seus países de origem.
Empresas que fabricam computadores, periféricos e equipamentos de telecomunicações em polos como a Zona Franca de Manaus ou o interior de São Paulo tendem a ganhar uma vantagem competitiva relevante. Da mesma forma, fabricantes de bens de capital — as máquinas que equipam outras fábricas — encontram um cenário mais favorável para oferecer seus produtos a indústrias locais que, antes, optavam pelo maquinário importado exclusivamente pelo fator preço. O benefício, contudo, é seletivo: ele favorece quem já está estruturado para produzir e pode absorver a demanda que deixará de ser atendida pelas importações agora mais caras.
Substituição de importações funciona?
A grande interrogação que paira sobre a Resolução Gecex 852 é a eficácia da substituição de importações no contexto das cadeias globais de valor do século XXI. Diferente das décadas de 1970 ou 1980, hoje a produção industrial é fragmentada. Um smartphone “produzido” no Brasil, por exemplo, muitas vezes é o resultado de uma montagem de componentes fabricados em dez países diferentes.
Nesse cenário, o sucesso da medida depende do grau de integração e da complexidade do produto. Em setores onde o Brasil possui uma cadeia de suprimentos completa, a substituição é viável e gera valor agregado. Contudo, em categorias de altíssima tecnologia, onde não há fabricação nacional de componentes críticos (como semicondutores de última geração), o aumento da tarifa não resulta em produção local imediata. O que ocorre, nesses casos, é apenas o encarecimento do produto final, já que o importador continua obrigado a comprar o insumo estrangeiro, agora com uma carga tributária maior. A política de substituição, portanto, enfrenta o limite físico da capacidade técnica e da infraestrutura tecnológica do país.
Riscos de menor concorrência
Um dos pontos mais sensíveis no debate sobre o impacto do protecionismo é o risco de acomodação da indústria doméstica. A teoria da concorrência estabelece que a pressão dos competidores externos é um dos principais motores para a eficiência e a inovação. Quando uma empresa nacional se vê protegida por uma alta barreira tarifária, o incentivo para investir em pesquisa, desenvolvimento e otimização de processos pode diminuir, uma vez que sua fatia de mercado está garantida pelo preço artificialmente alto do concorrente.
Historicamente, proteções tarifárias prolongadas sem contrapartidas de metas de produtividade podem levar ao que os economistas chamam de “ineficiência X”. Ou seja, as empresas tornam-se menos ágeis, os custos operacionais sobem e a qualidade dos produtos pode estagnar. Por isso, a política industrial moderna defende que as tarifas devem ser acompanhadas de incentivos à inovação e de prazos determinados, para que a indústria protegida hoje seja capaz de competir globalmente amanhã, sem depender eternamente de subsídios ou barreiras.
Impacto na competitividade brasileira
A ironia da competitividade da indústria brasileira é que muitas vezes ela é prejudicada pelo próprio remédio protecionista. Como o Brasil é um grande consumidor de bens de capital e insumos importados para a sua própria produção, o aumento do imposto de importação Brasil sobre máquinas e componentes acaba elevando o custo de produção de outros setores que não estavam na lista de protegidos.
Considere uma indústria têxtil nacional que precisa importar teares modernos para competir com o tecido estrangeiro. Se o imposto sobre esses teares sobe de 10% para 25%, o custo de modernização dessa fábrica brasileira dispara. O resultado é que o tecido produzido aqui, com máquinas agora mais caras, perde competitividade tanto no mercado interno quanto nas exportações. Esse “efeito colateral” demonstra que o comércio exterior não é uma via isolada; um aumento de tarifa em um ponto da cadeia pode gerar uma reação em cadeia de perda de competitividade em setores distantes.
Exemplo prático: a montagem nacional
Para visualizar como o aumento da tarifa pode gerar um efeito reverso, tomemos o exemplo de uma empresa brasileira que monta computadores. No modelo atual, ela importa peças fundamentais, como processadores e placas-mãe, que possuem uma escala de produção global impossível de ser replicada localmente no curto prazo.
Com a Resolução Gecex 852, se as alíquotas sobre esses componentes subirem, o custo de fabricação do computador “brasileiro” sobe quase na mesma proporção do importado. Se a peça nacional não existe para substituir a estrangeira, a empresa montadora enfrenta um dilema: repassar o custo ao consumidor, reduzindo suas vendas, ou reduzir seus investimentos em outras áreas. Nesse caso, a proteção tarifária, que visava ajudar a indústria de eletrônicos, acaba encarecendo o próprio produto nacional que utiliza componentes globais, gerando um cenário onde ninguém — nem produtor, nem consumidor — sai ganhando.
O ambiente de negócios, portanto, torna-se mais volátil. A previsibilidade de custos é essencial para investimentos de longo prazo, e mudanças bruscas nas alíquotas de importação obrigam as empresas a revisar planos de negócios inteiros. A competitividade da indústria brasileira no cenário internacional depende de um equilíbrio fino entre proteger setores estratégicos e garantir acesso a tecnologias globais que aumentem a produtividade de toda a economia.
Diante desses efeitos sobre preços e competitividade, resta avaliar como a medida se encaixa no cenário fiscal do governo e quais podem ser seus impactos macroeconômicos mais amplos.
A dimensão fiscal da Resolução Gecex nº 852/2026 é um dos pilares mais imediatos para o planejamento governamental no ano corrente. A projeção de arrecadação adicional de aproximadamente R$ 14 bilhões não é um valor desprezível; ela representa um reforço estratégico para o Tesouro Nacional em um momento de consolidação das metas do arcabouço fiscal brasileiro. No entanto, do ponto de vista da macroeconomia aplicada, é fundamental contextualizar esse montante dentro do orçamento federal. Embora expressivo, o valor atua mais como um ajuste de sintonia fina do que como uma solução estrutural para os desafios das contas públicas, que demandam reformas mais amplas e cortes de gastos correntes para uma estabilidade de longo prazo.
A natureza dessa receita é vinculada diretamente ao volume de comércio exterior. Diferente de um imposto sobre a renda, que possui maior previsibilidade, o imposto de importação é volátil e dependente da saúde da atividade econômica e da taxa de câmbio. Se a atividade econômica desacelerar ou se o dólar sofrer variações bruscas, o fluxo de importações pode se retrair, frustrando a expectativa de arrecadação. Portanto, os R$ 14 bilhões devem ser lidos como um potencial de receita que depende, paradoxalmente, da manutenção de um certo nível de consumo de produtos estrangeiros, mesmo após o aumento dos preços.
O desafio da meta fiscal e a sustentabilidade da receita

O impacto sobre o déficit público é o ponto de maior interesse para os investidores e para o mercado financeiro. A integração desses novos recursos ao caixa da União auxilia no cumprimento das metas de resultado primário estabelecidas pela equipe econômica. Em um cenário onde o governo busca equilibrar as contas sem recorrer a aumentos em impostos de base ampla, como o consumo geral ou a folha de pagamento, a tributação sobre o comércio exterior surge como uma alternativa politicamente menos custosa, embora economicamente complexa.
O sucesso dessa medida no combate ao déficit, contudo, reside na sustentabilidade da arrecadação. Se o aumento da tarifa for excessivo a ponto de paralisar as importações — o que a economia chama de efeito proibitivo —, o governo pode acabar arrecadando menos do que com uma alíquota menor, mas com maior volume de mercadorias. A eficácia fiscal da Resolução Gecex 852 será testada pela capacidade de absorção do mercado brasileiro: se as empresas e consumidores continuarem importando, ainda que em menor volume mas pagando mais caro, o objetivo fiscal será atingido. Se houver um “apagão” de importações em determinados NCMs, o ganho para o déficit será meramente marginal.
Vetores inflacionários e a resposta da política monetária
No campo da inflação, o aumento do imposto de importação atua como um choque de custos pelo lado da oferta. Como o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é sensível às variações de bens duráveis e eletrônicos, o reajuste nos preços de smartphones, notebooks e maquinários industriais tem o potencial de gerar uma pressão altista imediata em subgrupos específicos do índice. A grande questão macroeconômica para 2026 é se esse aumento será um evento isolado ou se ele contaminará as expectativas inflacionárias para o restante do ano.
Essa dinâmica coloca o Banco Central (BC) em uma posição de vigilância. A política monetária brasileira utiliza a taxa Selic como principal ferramenta para conter o avanço dos preços. Se o aumento dos impostos de importação resultar em um repasse generalizado que pressione a inflação acima das metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o BC pode ser obrigado a manter as taxas de juros em patamares elevados por mais tempo. Juros altos, por sua vez, encarecem o crédito e desestimulam o investimento, criando um dilema entre a necessidade de arrecadação do governo (política fiscal) e a necessidade de controle inflacionário (política monetária). O equilíbrio entre esses dois pratos da balança definirá o ritmo de crescimento do PIB no segundo semestre de 2026.
Cenários macroeconômicos e o comportamento do mercado
Para analisar o desdobramento da Resolução Gecex 852, é possível traçar três cenários distintos que dependem da reação dos agentes econômicos e da estrutura de mercado local:
🔹 Cenário Neutro: Equilíbrio de Mercado
Neste cenário, o repasse ao consumidor é moderado. As empresas absorvem parte do custo reduzindo suas margens de lucro, e a inflação sofre um impacto pontual, sem gerar uma reação em cadeia. A arrecadação de R$ 14 bilhões é atingida conforme o previsto e a indústria nacional começa a ocupar nichos deixados pelos importados de forma gradual. É o cenário ideal para o governo, unindo ganho fiscal com estabilidade monetária.
🔹 Cenário de Pressão Inflacionária: Repasse Integral
Aqui, a falta de concorrentes nacionais em setores de alta tecnologia obriga o consumidor a aceitar os novos preços. A inflação de bens duráveis sobe consideravelmente, impactando o IPCA e forçando o Banco Central a adotar uma postura mais austera (hawkish). A atividade econômica pode sofrer uma leve retração devido ao encarecimento do crédito e dos bens de capital, embora a arrecadação fiscal seja robusta devido à resiliência da demanda pelos produtos taxados.
🔹 Cenário de Substituição Eficiente: Salto Industrial
Neste desenho otimista, a indústria nacional responde com rapidez, aumentando a produção e mantendo preços competitivos que evitam o choque inflacionário. A substituição de importações ocorre com ganho de eficiência, gerando empregos e renda interna. Por outro lado, a arrecadação fiscal vinda do imposto de importação poderia ficar abaixo dos R$ 14 bilhões, já que o volume importado cairia drasticamente, sendo compensado pelo aumento da arrecadação de tributos internos (IPI, ICMS, PIS/Cofins sobre a produção nacional).
Riscos de frustração de receita e elasticidade do comércio
Um ponto técnico que não pode ser ignorado pelos analistas é a elasticidade-preço da demanda internacional. Alguns dos 1.200 produtos listados possuem substitutos próximos, enquanto outros são essenciais e não têm produção nacional equivalente. O risco de frustração da receita ocorre justamente naqueles itens onde o aumento de 25% na tarifa torna o produto proibitivo para o consumidor brasileiro.
Além disso, a integração do Brasil em acordos comerciais e cadeias globais pode sofrer tensões. O aumento unilateral de tarifas pode gerar contestações em fóruns internacionais ou retaliações pontuais de parceiros comerciais, o que afetaria outro lado da balança: as exportações brasileiras. A competitividade do país depende de um fluxo de comércio fluido; barreiras excessivas podem isolar setores produtivos, tornando-os menos eficientes no longo prazo devido à ausência de competição global e acesso a insumos de fronteira tecnológica.
Reflexão estratégica sobre o ambiente de negócios

O aumento do imposto de importação oficializado pela Resolução Gecex nº 852/2026 deve ser compreendido como uma decisão de múltiplas faces. Do ponto de vista fiscal, é um movimento pragmático para reforçar o caixa da União e sinalizar compromisso com as metas de déficit. Do ponto de vista industrial, é uma tentativa de reindustrialização via proteção tarifária, buscando fortalecer o parque fabril local.
Todavia, os efeitos macroeconômicos não são lineares. O sucesso da medida será medido não apenas pelos bilhões arrecadados, mas pela capacidade da economia brasileira em absorver esses custos sem sacrificar o controle da inflação ou a modernização tecnológica das empresas. O cenário de 2026 exigirá dos gestores financeiros e diretores de compras uma análise minuciosa das cadeias de suprimentos e uma gestão tributária eficiente. O comércio exterior brasileiro entra em uma nova fase de regulação, onde a eficiência operacional e a busca por alternativas de fornecimento nacional serão os diferenciais competitivos para enfrentar um mercado com custos de entrada substancialmente mais elevados. O resultado final dessa política dependerá da agilidade da indústria em responder ao incentivo e da resiliência do consumidor frente ao novo patamar de preços.





